John Mary

Foto de Álvaro Serrano no Unsplash

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sábado, 9 de maio de 2026

Ainda sabes quem eu sou?

Na mão direita, entorno um copo de vinho

"Meio vazio ou meio cheio?"

De uma segunda garrafa

Que ainda vai a meio

Na mão esquerda, seguro este livro de POESIA

E, junto à lareira, o que é que tu vês?

"O presépio de cortiça"... Talvez digas sem hesitar

Neste mesmo sofá, quem tu vês?

"Para sempre, nós as três!"

Por mero acaso: "Ainda sabes o que é amar?"

Continuas com o mesmo pijama com pinguins.

O serviço de chá minúsculo em cima da lareira.

Intacto e cheio de pó. A garganta feita num nó.

É Natal, "Happy New Year, ho, ho, ho".

Por cima, trazes vestido o casaco de malha quentinho, por dentro, bem escondidinho, o multifuncional sutiã:

"João Maria, salta já para o colo da mamã!"

Ainda sabes quem eu sou?

A história ainda agora começou…

Encostas a cabeça no meu regaço

A tua franja adormece de cansaço

A tua culpa, os teus ciúmes, a tua cor pálida e a tua magreza sem anca

Foram merecedoras do Prémio Nobel

Lá por terras de Avanca

Fecha agora os olhos e sossega a tua alma...

De olhos baixos, minha querida filha, sinto o bater vigoroso do teu coração.

Um, dois, três:

"Ação!"

Entra em cena alguém que te quer segredar ao teu ouvido e um subtil sussurro te lançar:

"Ainda te lembras de mim?"

Eu e tu, naquele jardim

Sim, nós os dois

O nosso lago, um amor sem fim

Atravessamos a rua de mão dada. Fizemos o braço de ferro sentados nas escadas de Santa Luzia. As tuas veias saltavam para fora, engordavam e encarnavam. A minha barriga morria de tanto que

ria. Fez-se silêncio. Ganhei-te, ficaste fula. Atiraste-me para o chão, rebulamos agarrados, paramos estagnados.

Na janela da capela:

"Um gigantesco coração... John Mary, és a minha perdição!"

Tocamo-nos, sentimo-nos, comemo-nos à grande e à francesa. Mesmo ali ao lado da tão ilustre e verdadeira casa à portuguesa. Parecia mentira de tão verdade que era!

"Será que o Egas Moniz está a ouvir-nos?" - perguntavas-me tu.

"Sim ou talvez não. Agarra-te e voa junto ao meu coração."

Abraçaste-me com as tuas asas de sininho e eu enfeiticei-te com a magia do Harry Potter.

Voamos tão alto, tão alto, mas tão alto... Que:

"Zás!"

Mergulhamos nas profundezas daquele lago. Os nossos corpos colados, suados, beijos de língua molhados, os nossos cabelos escorridos e despenteados.

Subimos à tona, pescoços a salvo, dentes a bater de frio:

Ufa! Conseguimos sobreviver! E, enquanto tu choras, eu rio. Eu agradeço 777 vezes por ter sobrevivido e tu ficas paralisada e sem pio. Garganta seca e arranhada, são sete da manhã e eis que ouvimos valente gargalhada.

Lembras-te, Mariazinha João, que ficaste tão fascinada?

Era o casamento da Sónia.

Ali. Aqui. Nesta Casa Museu. Nem queríamos acreditar.

Quem o diz?

"Professor Doutor Egas Moniz"

Quadros dispersos pelos jardins

Nomes dos convidados escritos com um pau de giz

Altar improvisado coberto com jasmins

Quem o diz?

"Professor Doutor Egas Moniz"

O Jorge chegou, calções de ganga, sweat branca com letras pretas nas costas:

"Amo-te Sónia". A Sónia também o amava, mas ainda não tinha chegado.

Olho para o lado, o meu coração estava, agora, amargurado que nem fel.

Pedi um copo de leite com mel. Entre os convidados lá estava ele, Aquele.

Aquele pilantra pirata. Apetecia-me partir-lhe os dentes, amassar-lhe aqueles olhos, deixá-los inchados que nem uma batata!

Eu, tu e aquele Pilantra. Os três naquele Museu Egas Moniz. Naquele instante, parte de mim dizia para o enfrentar, outra parte para silenciar. E assim o fiz:

SILENCIEI!

A Liliana também por ali passeava. Permanecia calada e com o Jorge de mão dada, trazia uma sweat extra larga, desprendida de uma anca disfarçada, pálida que nem lixívia.

Lugar para ciúmes já não havia:

"Proud of you!" — dizia-te eu

Sussurravas-me tu:

"Daniel, amor, és todo meu!"

Olhei para ti, Mary Maria

Tu olhaste para mim. Percebemos que teria de ser assim. Eles os dois daquele lado. Nós os dois escondidos, protegidos atrás daquele choupo.

Que tão grande legado! Talvez estivéssemos perdidos.

"De amor?" — perguntaste tu.

"Não! De paixão, meu estupor." Estávamos estupidamente apaixonados, corpos desnudados, encharcados, corremos abraçados a pé cochinho, desequilibrados, mais parecíamos seres embriagadamente alcoolizados.

Passamos na estufa e fizemos vénia à Dona Glória que, com tamanha glória, regava as plantas embrulhada no seu cachecol quentinho azul e branco.

Entramos no moinho.

Um armário inteiro para ti, um bilhete deixado no sofá:

"Escolhe Mary John." Tudo isto para ti. AGORA! AQUI!

Quem o diz?

"Professor Doutor Egas Moniz"

Abres o armário e o que vês?

Top amarelo com calças de ganga à boca de sino.

— Vestidos sem costas e todos tapados.

— Saias curtas e saias compridas,

Sweat lilás com letras amarelas "Proud of me"

— Saia comprida rasgada e remendada "Good Vibes"

Não hesitaste na escolha:

"Proud of me" & "Good Vibes". Casamento perfeito.

Batia à porta a Dona Glória e oferecia-nos um ramo de amores perfeitos. Eu escolhi umas jeans adaptadas aos meus quatro metros de altura.

Parecíamos estar a navegar noutro espetro, recebíamos radiação que matava só de olhar, raios fortes que curavam de tanto te amar.

Estávamos noutra dimensão, morríamos felizes se fôssemos parar, hoje mesmo, ao caixão!

Entrou a Sónia. Vestido branco de uma manga só. Segurava um gelado de

limão na mão direita que escorria, derretidamente, pela pele da outra manga

que não existia.

Atrás, seguia a Carolina que rodopiava sem parar. Piruetas e mais piruetas, aplausos constantes, Freddy Mercury a gritar: "We are the Champions" e, no fim, a tão aguardada espargata!

"Silenciaram!" Todos silenciaram.

"Levantaram!" Todos levantaram.

"Aplaudiram!" Todos aplaudiram.

O Jorge distribuía pizzas, mousses de chocolate e pipocas em copinhos de papel. Todos comprometidos com o ambiente. Não imaginavam a morte de todas aquelas árvores e jardim tão mais majestoso.

De repente, a Carolina chamava a atenção com a sua brilhante bandolete, talvez um bocado totó, mas dançava tão, mas tão bem que até dava dó! Um casamento nada igual a um adulto convencional.

Jorge entrava agora em cena, mas era a Sónia quem perguntava:

"Quem é que vai casar com a Carochinha que é tão bonita e formosinha?"

"Quero eu, quero eu... Sou o lobo mau e vou-te comer."

De repente, a carochinha pousa a sua vassourinha e dá forte ferrada no rabo gordo do lobo mau que em chama até ardeu. Nem queiram saber. Até a mim me doeu. Lol.

Dotes teatrais exibidos e bonito tapete de folhas outonais que a carochinha juntou até não poder mais.

Com uma tatuagem gravada no rabo, o noivo queixava-se a cada convidado que passava. Uns riam, outros arrotavam, outros deixavam cair no chão pipocas e restos de pizza e outros deixavam esquecidas mochilas com equipamentos de futebol, basquetebol e até de andebol. Todos estavam no mesmo campeonato. Num campeonato em que já sabiam quem sairia vencedor:

"Professor Doutor Egas Moniz". O nosso mestre e tão grande Senhor.

Sentados ao longe, eu desenhava na esperança de que a câmara de Estarreja aos 33 me galardoasse outra vez. Prometi-te replicar a estátua do nosso querido "Professor Doutor Egas Moniz" e assim o fiz. Entreguei-te o que os olhos viam e a alma aplaudia.

Ficaste radiante, pulavas, corrias de um lado para o outro, apanhavas todas as bolas de pingue-pongue que recebias. Grande jogo. Eras tu a servir.

"Silenciei!"

Fizeste ganda ponto, ganhaste-me no último segundo, no último suspiro das nossas vidas, mesmo no último sufoco e desataste-te a rir. Lá ao fundo, todos riam, jogavam ao Verdade ou Consequência. A Liliana, depois de 3 copos de vinho do Porto, degustados ao volante do cruzeiro Egas, já dizia piadas tão estúpidas que a nossa barriga doía de tanto rir.

Ao longe, ouvíamos:

"Portimão, portipe"

"Ketchup, ketchupa"

"Arrumar, arruria"

Insight! Reminder! Estávamos à beira de uma das rias mais belas, a de Aveiro.

Poderíamos ser pobres, desprovidos de dinheiro, mas à volta tínhamos casinhas pequenas, vacas, ovelhas, amigos de rastas, outros de estilo gótico, circenses, alternativos e tão diferentes do convencional.

O que é que importa? Deus não quer tudo igual! Olhamos para o muro, grafites por todo o lado, letras que juntas anunciavam:

"Professor Doutor Egas Moniz. Deus e o seu legado"

As cartas desenhadas por ti, Mary João, eram agora distribuídas por cada um dos convidados. Desenhos e excertos da vida e obra do "Professor Doutor Egas Moniz."

"Todos silenciaram".

O conhecimento ia crescendo, informação partilhada, telemóveis em rede, redes sociais engrandecidas, objetos preciosos e valiosos que da casa museu saíam pé ante pé de tão belos que eram, ninguém os via.

Aquela casa falava, ecoava a sabedoria em cada esquina, em cada canto. Tinha aroma a pradaria.

Parte de mim queria ficar, outra dizia que eu um dia iria viajar.

Queria a tua boca adoçar e por isso.

Ah!

Mesmo ali ao lado, a árvore de Natal da tua avó enfeitada com bolinhas, carrinhos, sininhos, coelhinhos e guarda-chuvas de chocolate. Ofereceste-me o último guarda-chuva do pacote, mas, devolvi-to:

"Serei o teu guarda-chuva para sempre."

Estava escrito na prata colorida que agora desembrulhavas e juntavas à tua coleção. Não percebeste na hora e, por isso, nem reagiste. Por momentos, estavas sós, até eu desaparecido... Tu e o Museu. O Museu a sós contigo. Contaste até três, fingiste jogar às escondidas em 3 segundos que mais pareciam ser três meses ou três séculos, num ápice demorado lá voltei... Era um Pai Natal moderno.

Vinha de mota, não foi preciso dizer nada. Encostei a mota ao tronco daquele choupo e pus-la a descansar. Falamos de doenças terminais, do curso que tirámos... Éramos artistas, éramos felizes, liberalmente autênticos, essencialmente genuínos. Éramos nós!

Ao longe, mas tão perto, ouvíamos os comboios que partiam e chegavam... Fomos majestosamente surpreendidos com uma serenata. Fado de Coimbra. Eterna saudade. A guitarra portuguesa e um tchim tchim de braços cruzados em agradável consonância.

Estávamos casados. As lágrimas escorriam-nos pela cara abaixo, estávamos felizes. Fizemos amor com toda a ganância. Dom Pedro e Dona Inês amaram-se na Quinta das Lágrimas. Nós amamo-nos neste Lago:

"O Lago dos Sorrisos".

Quem o diz?

"Professor Doutor Egas Moniz"

Saí por uns instantes, levei a minha mota, olhei para ti com:

"Um olhar que olha"

Tirei-te, delicadamente, o fio com a andorinha que a tua mãe te tinha dado e levei-o comigo. Era para nós um bem sagrado!

"Beijamo-nos loucamente." Não te quis dizer Adeus!

Nunca suportaste despedidas, eu também não.

A triste verdade é que nunca mais voltei, mas de uma coisa eu sei:

"TU SEMPRE GOSTASTE DE MIM"

"SOU O DANIEL, CÁ DE CIMA, AMO-TE, VEJO-TE ATRAVÉS DE UM CÉU QUE NÃO MAIS TERÁ FIM"

MARY JOHN, minha querida filha, já sabes quem EU SOU?

Acorda quando quiseres:

"O TEU SONHO (DE VIDA) AINDA AGORA COMEÇOU"

Ah e deixo-te esta carta, com aroma a POESIA, porque assim o DANIEL já te

dizia:

"O FUTURO NUNCA NINGUÉM ADIVINHOU!"

Por isso, quando chover muito e trovejar, a sério e de verdade… Não deixes ninguém mais alto do que tu falar.

Acorda de repente:

"Abre o teu guarda-chuva. Abriga-te bem. Não importa quem está, quem vai ou quem vem. Para sempre vou-te AMAR."

Com carinho, do TEU DANIEL

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Silvana Soares

Da Raiz ao Coração dos Leitores

Silvana Soares

Da Raiz ao Coração dos Leitores

Silvana Soares


Silvana Andreia Rodrigues Soares nasceu em Coimbra em 1979.

Licenciou-se em Engenharia Química, pela Universidade de Aveiro, em 2004. Possui uma pós-graduação em Gestão da Qualidade, concluída em 2009, na Universidade Fernando Pessoa.

Iniciou a sua experiência profissional, em 2005, na área da Qualidade, na empresa Simoldes-Plásticos, S.A, sediada em Oliveira de Azeméis, onde permaneceu e adquiriu conhecimento durante doze anos.

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